Do “sem acidentes” ao “com aprendizado”: a verdadeira evolução da segurança

 


Dias atrás, cruzei com uma daquelas placas clássicas de segurança que ainda dominam muitos ambientes de trabalho: “Estamos há 1.080 dias sem acidentes com afastamento”. O número chamava atenção, quase imponente. Mas, quanto mais eu olhava, mais sentia que algo ali não fechava.

Depois de tantos anos atuando na área, uma coisa ficou clara para mim: onde há pessoas, há desvios. E onde existem desvios, existem riscos. Não se trata de pessimismo ou desconfiança gratuita, mas de realidade operacional. Por isso, acreditar que uma empresa passou três, quatro ou até dez anos sem um único acidente digno de registro exige, no mínimo, reflexão.

O problema é que, em muitos lugares, a segurança ainda é medida pelo silêncio. Silêncio de quem não reporta. Silêncio de quem tem medo de ser apontado como culpado. Silêncio de quem prefere esconder um pequeno corte no dedo para não “estragar o placar”. Esse silêncio, embora confortável para os números, é perigoso para as pessoas.

Essas placas, é verdade, nasceram com boa intenção. Eram um lembrete diário de cuidado e atenção. Com o tempo, porém, passaram a representar muito mais uma cultura de marketing do que, de fato, uma cultura de segurança. Elas não mostram o que foi feito para evitar acidentes, apenas o tempo que passou sem que um fosse oficialmente registrado.

Felizmente, algumas empresas começaram a virar essa chave. Elas entenderam que o que realmente salva vidas não é um contador crescente de dias sem acidentes, mas a capacidade de identificar, discutir e resolver desvios antes que algo grave aconteça.

Recentemente, me deparei com uma imagem que resume bem essa mudança de mentalidade. Na parte superior, a velha placa: “Estamos há 366 dias sem acidentes com afastamento”. Logo abaixo, uma nova mensagem: “Resolvemos 97,7% dos desvios abertos em São José dos Pinhais”. A primeira celebra a ausência de problemas. A segunda celebra a presença de aprendizado.



É isso que representa maturidade em Segurança do Trabalho. É quando o relato passa a ser valorizado mais do que o silêncio. Quando a meta deixa de ser esconder riscos e passa a ser resolvê-los. Quando cada colaborador entende que reportar um desvio é um ato de responsabilidade, e não um motivo de punição.

A segurança do trabalho está evoluindo. E quem acompanha essa transformação sabe: placas não salvam vidas. Pessoas salvam. Mas pessoas só conseguem salvar vidas quando têm espaço para falar, participar e confiar.

No fim das contas, o futuro da segurança não está no “zero acidentes” estampado na parede. Ele está em cem por cento de verdade, cem por cento de aprendizado e cem por cento de prevenção.

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